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quinta-feira, 3 de março de 2011

CONFISSÃO

“Tava cansado de me sujeitar a certas humilhações. Tentei trabalhar honestamente como minha mãe me ensinou. Mas tem hora que não dá. A criança em casa esperando a comida. O aluguel vencendo. Cê trabalha como um louco e na hora de receber eles vem querendo te guarfar e ficar com parte do que é seu por direito! Mas comigo não é bem assim que funciona. Mano, já trabalhei de tudo o que podia. Já fui faxineiro. Ficava limpando a merda dos outros. Incrível como os cara de dificuldade de mijar dentro da porra do vaso. Mulher então nem se fala. Ce você fica pensando que banheiro de mulher é limpo e perfumado, cê ta enganado. Mulher também faz a suas merda. Joga papel dentro do vaso, “modess usado”. É foda. Mesmo assim no dia do meu pagamento o dinheiro tava lá. Era pouco mais o dinheiro tava lá no dia certo. Depois mano, fui trabalhar de ajudante de pedreiro. Cara é foda, você quer ver neguinho se achando é você dar um cargo de poder pra ele. Eu tava fazendo tudo certinho. Tava cimentando a calçada, tava sol pra caralho e eu ali no maior trampo. Já tinha mexido o cimento, já tinha carregado lata. Tava de boa agora só deixando a calçada lisinha. Ai vem o troxa me esculachando dizendo que meu serviço tava uma merda. Mano quando eu vi ele pisando na calçada que eu tinha acabado de cimentar, ai eu num agüentei. É foda! Depois fui com um tio meu trabalhar com ele catando papelão. É osso ficar puxando carroça. Ficar revirando lixo, catando o resto dos outros, mas mano, cheguei a ganha 30 conto num dia. Chegava em casa morto, mas levava o pão o leite e uma pedaço de carne. Minha fazia um mexido e a criançada adorava. Eu durmia feliz. Acordava cedo, pegava a carroça e saia pela cidade e não vai pensando que é fácil. Num pode invadi. Cada um tem seu espaço. Porra essa merda de cidade é grande pra caralho e neguinho brigando por causa de lixo. É foda! Um dia eu tava com minha carroça cheia. Tinha conseguido pegar uns ferros que ia da um troco no final do dia. Tava na minha. Final de tarde ai vem uma tiazinha com o carrão do ano buzinando atrás de mim. A carroça tava pesada. A rua tinha um pouco de subida. Eu num tinha espaço, tinha que anda no meio da rua e vagabunda atrás de mim buzinando. Mano, aquela porra foi me enchendo, foi me dexando com os nervo exposto. Pior que eu não tinha como para. Se eu parasse a carroça descia. A raiva foi tanta que eu parei pra discuti com a madame. Quando eu tentei para, a carroça me jogou pra cima. Imagina só eu fiquei cum as pernas no ar e a carroça foi descendo e num deu outra bateu no carro da mulher. Eu pulei e já fui xingando. Quando ela me viu tratou de fechar os vidros. Só vi ela pegando o telefone e ligando pra alguém. Num demoro tava o marido da mulher e mais umas vinte viatura de polícia. Foi um rebu. Ela saiu chorando disse que eu tinha ameaçado ela. Que eu fiz di propósito. Tinha que ver a cara da madame. Essas loira aguada que nunca pego no batente. Caso cum esses home rico e acha que é a dona do pedaço. Num custava nada ela ispera um pouco. Se fudeu. Na minha carroça num aconteceu nada, já no carro dela o estrago foi feio. Ai os policia queria me leva pra delegacia e u disse que num ia e num fui mesmo. O marido dela achou melhor deixa pra lá. Um carrão daquele com certeza tinha seguro. Ninguém respeita. Ficam buzinando, jogam o carro em cima, xingam. Quanto mais luxuoso é o carro pior é as pessoas. Ai mi enchi e fui fazê outras coisa. Um dia tava lendo um desses jornal do metro e tava lá um anuncio de emprego que dizia que contratava sem experiência. Tinha que leva os documento pra faze uma entrevista. Os documentos eu tinha. Era pruma vaga dessas pessoas que fica no telefone ligando pra casa dos outro. Eu cheguei lá na hora marcada e tinha um monti de gente. Tudo um moleques. Uma menina nova com os peito tudo de fora. Como é que vai procura trabalho dessa maneira. Mandaro eu preenche uma ficha e a mulher perguntou se eu sabia lê e escreve, pode? Será que eu tenho cara de analfabeto? Só podi. Sabe, lê eu sei e escreve também. Estudei até a oitava serie e depois tive que fazer meus corre. Família grande. Tinha além de mim mais cinco irmão e minha mãe. Meu pai abandonou a gente quando a gente mais precisava. Ai, sem saída e com pouco dinheiro, a mãe levou nois tudo pra mora na favela. Juntou um dinheiro e comprou um barraco. Eu lembro bem. O barraco era pouco maior que a carroça que eu puxava. Lá morava nois tudo e a mãe cuidava de outras criança e também custurava pra fora. Eu saia com meus irmão pra pedi as coisa na rua. Minha mãe ensinou nois a nunca rouba. Dizia que a gente tinha que trabalha e foi o que nois fizemo. As vezes eu tava uns tapinha num cigarro de maconha mas nada que minha mãe pudesse perceber. Bom ai eu comecei a trabalha nessa empresa. Tinha muita gente. O trabalho era fácil. Eu tinha que liga pra cada dos outro vendendo um produto. Trabalhava pouco e ganhava até que um dinheiro bom. Logo no começo eles mandaro eu abri conta num banco. Logo eu que nunca tinha mexido cum essas coisa. Ele precisava depositar o pagamento na conta. Comecei a me sentir importante. Num desses sobe e desce, conheci uma menina chamada Iasmim. Uma menina de mais ou menos dezenove anos. Escolada. Já era mãe de uma menina. Trabalhava lá de manhã, a tarde cuidava da filha e a noite era dançarina numa boate no centro de São Paulo. Eu gostava do jeito dela e pelo jeito ela também gostou do meu jeito. Não demorou muito e eu tava morando com ela. A casa ficava no terreno da mãe. Sabe esses terreno grande onde mora toda a família junto, então era assim. Na casa da frente morava a mãe. Ela era dona de um bar. Essas mulher que vem do norte. Cara de mulher brava. Mulher de bigode. No fundo tinha a casa da Iasmim, a casa da irmã dela a Claudia e o marido, a casa do outro filho o Marco e a namorada e seu filho. Eu deixei minha mãe e fui morar com ela. Mas num pensa que eu esqueci minha mãe. Na verdade, essa história esta apenas começando. Nois se dava bem. Eu cuidava da filha dela como se fosse minha filha. Num tinha o menor problema. A gente saia pra passia, ia nu Shopping, comprava ropa pra ela e pra mim e pra criança também. As vezes a gente brigava mas não era nada sério. A gente tomava umas breja junto e tava tudo bem. Num deu muito certo porque as pessoas lá queria cuidar da vida da gente. Sabe como é, muita gente falando, querendo cuida. Ai nois resolvemos alugar um quarto só nóis mora. A gente trabalhava e podia paga. O legal é que a gente ia junto trabalhar. Deixava a pequena na creche e saíamos de mãos dada. A gente fazia planos. Eu fazia ela rir muito. De domingo a gente ia visitar minha mãe e meus irmão. Passava na padaria comprava frango assado, refrigerante, ai era uma festa. Tava tudo indo muito bem na minha vida. Sempre segui os conselhos da minha mãe. Ela sempre dizia que se você faz o mal, o mal sempre volta. Ela não tinha criado filho vagabundo. Ela fez nóis tudo estuda e eu como filho mais velho tinha que ficar de olho nas minhas irmãs. Sabe como é, os homens não dão moleza. Sou homem e sei como ele pensa.

Mas ai, um dia lá na empresa eu fui chamado na sala de reunião. O chefe foi logo falando que estava contente com meu desempenho, com minha dedicação. Disse que por causa dos resultados a empresa ia me dar uma chance e ia me promover, mas que eu precisava com essa promoção cursar uma faculdade. Claro que agi normalmente como se aquilo não fosse surpresa pra mim. Sai de lá e fui correndo procurar minha preta. Queria conta que eu ia me dar bem e que ela era o motivo de tudo isso. Eu estava eufórico. Eu ia ser promovido e ia fazer faculdade. Tudo isso era demais. Queria contar pra minha mãe. Eu ia fazer um treinamento e depois eu já passaria a receber como supervisor. O salário aumentava. Ia dar pra arrumar uma casa melhor e quem sabe até pensar em ter um filho nosso. Olha de catador de lixo, de faxineiro eu ia ser supervisor. Ia ter que andar de gravata. Coisa xique. Comecei até pensar em comprar um carro pra poder viajar.

Só que as coisas sei lá porque começaram a dar errado e ai que eu me revolto e brigo com Deus. Minha mãe ficou doente e mal podia cuidar das minhas irmãs. Falei pra preta que eu ia ter que ficar com minha mãe por uns dia até ela ficar bem. Ai começamos a discutir porque ela não queria. Começou a falar da minha mãe e ai não prestou, perdi a cabeça e dei um murro na cara dela. Vi o olho dela inchar na mesma hora. Tentei falar com ela mas ela num queria saber. Começou a me bater e a me xingar de tudo quanto é nome. A pequena começou a chorar. Os vizinhos vieram e levaram ela dali. Eu fui pra casa da minha mãe. A coitada tava de cama e eu num ia conta pra ela o que tinha acontecido. Eu tava lá cuidando dela quando bateram no portão. Era a polícia. A preta tinha ido à delegacia dar queixa de mim e os homens vieram me pegar. Minha mãe que tava ruim ficou pior quando viu eu sair de lá algemado. Eu nunca fugi da briga. Eu tinha feito a merda agora tinha que assumir. Na frente do delegado e a preta, disse que e tinha dado um murro nela quando ela começou falar da minha mãe. A preta disse que foi errada mesmo e resolveu não prestar queixa. Ela saiu de lá primeiro que eu e depois disso não mais nos falamos. O delegado me fez passar uma noite na delegacia pra pensar no que eu havia feito. Quando eu estava na cela, o carcereiro disse que o delegado mandou me chamar. Tinha acontecido algum coisa com a minha mãe e ele me liberou. Fui pra casa correndo e já tinha levado minha mãe para o hospital. Eu não ia me perdoar se tivesse acontecido algo de ruim com minha mãe. Cheguei no hospital e recebi a notícia que minha mãe tinha acabado de falecer.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

VIAGEM

Estava na cara que aquele era o tipo de relacionamento que jamais iria dar certo. Eu sou um homem de 40 anos e juro pra você que eu não sei onde eu estava com a cabeça ( na verdade eu sei sim). Eu mergulhei de cabeça naquele decote. Não me preocupei em saber qual era a idade daquela menina. Para mim uns vinte dois anos. Ela tinha dezesseis. Como eu ia saber? As meninas de hoje crescem e se comportam com mulheres. Assim que bati os olhos naquele decote maravilhoso que ostentava um volumoso par de seios, percebi de imediato um sorriso por parte daquela mulher, menina. Aquele ser. Ela me olhou bem nos olhos e sorriu. Fiquei meio desconcertado, meio que sem graça. Logo eu! Não podia embarcar nessa.
O metro estava cheio. Tentei disfarçar mas tinha curiosidade para saber se era mesmo para mim aquele sorriso. Aquele decote me atraia. Ela começou a se arrumar. Percebi que ela ia descer na próxima estação. Levantou e veio em minha direção. Olho bem para mim e disse:
- Você vai descer na próxima?
- É um convite? - perguntei de imediato.
- Depende das suas intenções.
- As melhores possíveis.
Mais uma vez ela sorriu maliciosamente. Fiquei olhando. A porta abriu e ela desceu e me chamou. Eu estava com certeza enfeitiçado. Sem pensar acabei descendo. Não lembrei que minha mulher estava me esperando na estação final.
Ela subiu a escada rolante e parou antes das catracas e eu feito besta fui atrás. Eu não sabia o que falar, o que pensar. Me aproximei dela. A essa altura não conseguia controlar minha excitação.
- Ela apoiou os braços em volta do meu pescoço e me perguntou quase sussurando no meu ouvido:
- O que você estava olhando com cara de tarado?
- Eu estava olhando pra você!
- Você gostou dos meus peitos? Aposto que está louco para dar uma boa chupada neles!
- Você conseguiu perceber isso só de olhar?
- Não. Claro que não! Estou sentindo pelo volume da sua calça!
- Você me deixou assim!
- Eu não fiz nada!
Devagar ela veio e beijou minha boca. Parece que naquele momento não existia nada. Esqueci as horas, esqueci do mundo. Foi um beijo quente. Cheio de paixão ou sei lá o que! A todo momento ela me chamava de tarado. Aquilo me excitava. Podia sentir o cheiro da sua pele. Podia sentir os seios dela contra meu peito. Ela me beijava e me apertava. Ela olhou no relógio e disse que precisava ir embora. Me deu seu telefone e pediu para eu ligar pra ela assim que eu chegasse em casa.
- Eu sei que você é casado. Mas sei também que você tá louco pra me comer! Me liga!
Se despediu de mim com um beijo quente e de leve senti sua mão descer até minhas pernas. Eu estava euforico. Depois desse dia tudo em minha vida mudou. Nos falamos varias vezes. Nos encontramos e o que eu não sabia era que eu estava sendo vigiado. Eu não sabia e não podia imaginar que minha vida estava sendo vasculhada, revirada. Em pouco tempo fui do céu para o mais profundo de todos os infernos...



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Tanto que já fiz - 1

Lembro-me de ter começado a trabalhar cedo demais.
O meu primeiro emprego efetivo foi na banca numa feira em São Paulo (banca não). Recebi um convite de um amigo para ajudar ele e seu pai na feira. Logo imaginei que fosse uma banca que vende-se frutas, verduras. Que engano. O pai dele era marreteiro e tinha um tapume onde jogava várias meias e vendia. Algo bem irregular. Se chegasse a fiscalização, era corre-corre certo. Como pagamento ganhei um par de meias é claro.
Uma vez eu estava no interior de São Paulo, a cidade era Birigui. Um circo tinha acabado de chegar na cidade e eu queria ir, mas minha avó não quis me dar dinheiro. Fiquei na porta do circo um tempão até que o dono do circo do circo disse que eu podia trabalhar vendendo pipoca e assim poderia assistir ao espetáculo. Foi o que fiz. Coloquei um chapeuzinho e peguei uma bancada de pipoca e sai vendendo na platéia. Na hora de ir embora para casa o dono disse que ia me pagar. Me levou para uma Kombi e fechou a porta. Começou a me mostra revistas pornograficas. Eu tratei de chutar a porta e sai correndo. Jurei que nunca mais ia trabalhar dessa maneira. Juro que escapei por pouco.
Já trabalhei de ajudante de pedreiro, mas não deu certo. O mestre de obras deixou cair um tijolo baiano na minha cabeça, mandei ele a merda e vim embora. Já fui ajudante de eletricista. Não deu certo. Trabalhei com vendedor do Círculo do Livro, meu chefe andava comigo na rua cobrando metas. Fiquei escondendo meus contratos fechados e ele me cobrando. Com o saco cheio das cobranças peguei os contratos, rasguei todos e entreguei para ele. Fui embora também. Às vezes andava o dia inteiro sem ter o que comer. Época que o cachorro quente no centro de São Paulo custava R$ 0,50 e vinha com duas salsichas e ainda ganhava um suco grátis. Eu me fartava. Isso era o que eu comia. Andei muitas vezes com sapatos furados ou com pregos na ponta para não deixa que caísse a sola no meio da rua. Depois conto um pouco de tudo o que eu já fiz...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

AMANHÃ

Eu nunca pensei no amanhã.

Queria viver meu hoje e sentir saudade do meu ontem. O amanhã era para mim algo distante. Bem distante. Mas um dia percebi que meu reflexo no espelho estava mudando. Meu rosto não era mais o mesmo. Olhei para trás buscando uma saudade. Não havia nada. Nada para que eu pudesse me agarrar. Meus dias eram vazios e cada dia eu me perdia um pouco mais. Olhei para o amanhã com medo e mesmo diante de tantas incertezas, sonhei com dias melhores. Vi ilusões vestidas de certezas.

Era algo intocável.

Algo que estava ali diante dos meus olhos. Não sabia o que fazer para alcançá-los. O medo me dominava e a vida passando.

Procurei nos livros e encontrei perdida entre linhas esquecidas uma frase que dizia:

- SEU AMANHÃ É SEU HOJE

Demorei em entender, para perceber. Foi então que decidi mudar meu modo de pensar. Entendi como são construídas as pontes. Aprendi a sonhar. Entendi o que era viver e o que a vida esperava de mim.

Hoje vivo meu hoje ainda mais intensamente. Plantando sempre as sementes do meu amanhã. Depende de mim e do meu esforço. Posso tudo.

Meus planos para meu amanhã?

Fazer a coisa certa hoje!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

DE NOVO

Eu queria apenas voltar para casa.
A saudades de tudo estava forte demais. Não via a hora de encontrar meus filhos, minha casa. Precisava voltar para minha vida.
Recomeçar de onde havia parado. Aqueles anos longe mudaram minha maneira de ver a vida. Não queria mais nada daquilo.
Fui condenado a mais de 25 anos de cadeia. Crime? Homicidio.
Eu amava demais minha mulher. Cheguei em casa um dia e vi um homem conversando com ela no portão de casa. Fui tomado pelo ciúmes. Hoje sei que não havia motivos. Vilma sempre fora uma mulher carinhosa, fiel, mãe exemplar, esposa carinhosa. Naquele dia nada disso me fez parar. Vendo o sorriso estampado em seu rosto, sentindo a proximidade dela com aquele homem no portão da minha casa, fiquei cego, louco. Senti um torpor forte. Parei e fiquei imaginando tudo. Minha mulher se entregando para aquele homem nas horas que eu não estava. Meus filhos correndo ao seu encontro e dando para ele o amor que era meu. Imaginei ele na minha cama, comendo na mesa com minha família a única razão que eu tinha para me sentir vivo e forte. Parei e fiquei ali, olhando a cena enquanto era consumido por inteiro por todos os piores sentimentos. Vi o exato momento que ele se aproximou e a abraçou beijando-lhe a fase. Se despediu e partiu deixando-a com o sorriso no rosto.
Cheguei em casa e não disse nada. Ela também não me falou nada. Não me disse quem era aquele homem que parecia ser íntimo demais.
Tentei agir da maneira mais natural possível. Dias se passaram e tudo para mim era motivo. Desconfiava de tudo. Já não conseguia olhar para ela
como sempre. Ela era pra mim uma vaca, uma vagabunda que apoveitava o momento em que eu não estava em casa para se entregar para outro
homem. Não pensava em mais nada. Comecei a não render no emprego. Andava todos os dias de péssimo humor. Comecei a me fechar e a enlou quecer sozinho. Cada vez mais calado. Nem meus filhos me faziam rir. Achava que eles eram cumplices.
Um dia, não estava passando bem, acabei voltando mais cedo para casa. Vilma não estava. As crianças estavam na escola e a casa para mim estava largada como se alguém derrepente saisse correndo. Fui para o quarto. A cama estava arrumada mas com a nítida impressão que alguém
se deitou nela, deixando marcas na colcha. No banheiro, a sensação que alguém havia acabado de tomar banho. Os frascos de perfume estavam abertos na penteadeira como se Vilma acabasse de usá-los e com pressa saiu sem tampá-los. Comecei a vasculhar tudo em busca de vestígios. Ela
havia deixado o telefone celular. Olhei e vi suas últimas ligações recebidas. Olhei suas mensagens:
- Passo na sua casa daqui a meia hora. Me espere no portão. Paulo.
Havia um número de telefone. Claro que eu liguei. Claro que caiu na caixa postal. Ela recebeu a mensagem as 14:00hs. Meus filhos entravam na escola as 13:30 e era ela que deixava meus filhos na escola. Por isso a pressa em se arrumar. Sai desesperado. Não via nada. Não via ninguém. Tive vontade de acabar com minha vida, tive vontade de acabar com tudo. Fui envolvido por todos os piores sentimentos. Raiva, ódio, magoa, uma fúria descontrolada. Queria me vingar. Pensava em tudo. Peguei o carro e fui para o centro da cidade. Estava cego.
Deixei o carro estacionamento e sai. Não via nada. Nem ninguém. Via apenas Vilma se entregando para aquele homem. Via ele possuindo a mulher que era minha. Vi sua cara de prazer. Parei em um bar. Eu nunca havia parado em um bar. Pedi uma bebida forte. O rapaz do balcão me serviu um conhaque. Aquele líquido queimou as últimas sensações de bondade que haviam em mim. Decidi matá-la. Tomei mais algumas doses de conhaque.
Mais umas e umas. Comecei a me sentir forte, imbatível. Sai dela com a boca amarga. Cheio de ódio.
Quando cheguei em casa ela ainda não estava. Fui para o meu quarto. Abri o cofre, peguei o revólver calibre 38, coloquei as seis munições e fui para a sala. Apaguei as luzes. Fechei as cortinas. Sentei e esperei. Não era mais eu que estava lá.
18 horas e vinte cinco minutos. Escuto Vilma chegar. Assim que ela abriu a porta e acendeu a luz, descarreguei toda minha fúria. Dei seis tiros na mulher que eu mais amava. Meus filhos estavam com ela. Viram a mãe cair praticamente aos meus pés. Lágrimas cairam. Meus filhos debruçados
sobre a mãe choravam desesperados. O barulho chamou a atenção dos vizinhos. Sentei e esperei a policia chegar. Sai de lá, deixando minha mulher morta, meus filhos sem pai e agora sem mãe. Dias mais tarde fiquei sabendo que aquele homem era apenas um vendedor. Ele passou em casa para ir com minha mulher até a loja para justamente escolher o meu presente de aniversário. No dia que eu os vi em casa, ele havia levado um catálogo para que minha mulher pudesse ter a idéia do que me dar de presente de aniversário de casamento.

domingo, 15 de agosto de 2010

MUROS

Se eu pudesse voltar atrás, queria que tudo fosse como antes, em que podíamos conversar sem qualquer pretensão, sem agressão. Éramos sim amigos despretensiosos.Queríamos apenas estar. Mas aos poucos tudo ficou pesado. As palavras ficaram amargas. Começou a se querer muito. Começaram a existir culpas e culpados. A amizade se perdeu. Feriu-se. Deixamos de nos ver como nos víamos. Deixamos de ser amigos. Ficamos preocupados em medir força. Força desnecessária. Perdemos a essência.Tenho sim saudades do tempo que passávamos horas e horas falando. Eram dias e tardes. Eu ria, sorria. Sentia-me bem. Não havia intenção nas palavras. Não havia necessidade de se cobrar nada. Tudo isso se perdeu. Abrimos-nos demais e nos perdemos. Se eu pudesse voltar no tempo, voltaria no exato momento em que nos conhecemos e nos falamos pela primeira vez. Iria apenas falar de poesia, iria apenas falar das cantigas. Iria pegar o seu melhor e somar a minha vida.Hoje, achamos que nos conhecemos demais. Hoje, achamos que podemos demais. Hoje, perdemos tudo por nossa culpa.Ficamos preocupados com os pensamentos. Tudo ficou pesado. Articulado. Presos nas armadilhas que criamos. Conhecemos-nos sem nos conhecer. Sinto sim, falta da amizade que um dia tivemos. Era bom demais conversar despretensiosos. Havia a necessidade do bom dia. Havia o desejo de compartilhar, de compactuar por que é disso que é feito a amizade.Hoje, não somos mais libertos. Há culpa, há dor, magoa, cicatrizes que ainda sagram e saberá Deus ainda por quanto tempo ira sangrar. Se eu pudesse voltar atrás, voltaria. Amei o momento que vivemos. Foi lindo. Foi nosso. Foi inesquecível. Não nos conhecemos mais ou nos conhecemos demais ou ainda achamos que nos conhecemos e foi nesse exato momento que nos perdemos. Perdemos o sentido de tudo. Viramos o oposto do que queríamos. Armamos-nos e atacamos sem se importar com o que estava sendo perdido. Colocamos-nos a frente de nós mesmos e perdemos. Começamos então a desfazer tudo o que foi criado. Começamos a desmontar sem perceber a ponta que construímos e passamos a erguer um muro intransponível. Usamos tudo de nós contra nós mesmos. Tenho saudade sim dos dias que conversávamos despretensiosos sobre tudo. Falávamos de amor, de paixão, falamos de poesia.Tudo isso bastava e era isso que eu queria. Mas as peça de uma máquina se desgastam. As engrenagens empenam. E assim foi conosco. Sete anos, todos os dias, falando, nos dando, exigindo de nós sempre mais e mais. Começamos a nos arranhar, a nos machucar e nem percebemos que aos poucos, já não éramos mais o mesmo.E não somos mais os mesmos. Já não sabemos mais nada de nós. Cada dia um tijolo no muro que nos separava. Hoje não sei mais nada de você e você não sabe mais nada de mim. O muro se ergueu alto demais. Ouvimos apenas nossos gritos. O som oco de nossa voz. Aos poucos se tudo continuar assim, logo nossa voz será abafado pelos nossos gritos e não mais nos escutaremos. Tenho saudade sim, dos amigos que fomos um dia. Hoje não me conheces e eu já não te conheço mais. Cada dia, um tijolo. Cada dia, cada vez mais, nossa voz apagada. Restará somente, as mãos calejadas, os tijolos e a lembrança do que já fomos. Se eu pudesse, voltaria atrás no exato momento em que nos conhecemos.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

UM POUCO CADA DIA

... é como se eu soubesse o que vai acontecer amanhã. Tenho medo e ao mesmo tempo estou tranquilo. Só não sei como será. Gostaria que fosse dormindo para que eu não sentisse nada. Nunca gostei da dor. Parece que só assim, estando do outro lado é que poderei ser útil. Parece que só estando do outro lado é que poderei fazer alguma coisa. me sinto inútil, incapaz. Todas as ações
terminam em nada. As pessoas não estão felizes. Os seus semblantes estão sempre carregados. Confesso é difícil viver assim. Viver cansa. Já tentei de tudo. Fiz o que é certo e também o que é errado. Amei, me dediquei, esqueci, voltei, tentei. Perdoei, pedi perdão, sorri, chorei e agora parece que nada disso tem importância. Sinto que morro um pouco a cada dia. Parece que a vida vai me deixando. Minhas vistas parece que perdem a força. Meu peito tem doido muito e nem reclamar eu posso. Tenho que ser forte, mas sinto minha força se perdendo. Terei agora todos os motivos para querer viver. Ainda tenho sonhos e muitos sonhos vivos. Tenho esperanças ainda e mesmo assim sinto que não há tanta vida como havia. Eu já fiz tanto. Tanto que já vi. Parece que agora nada mais tem graça e justamente agora que a vida me dá mais uma chance para seguir em frente e ver meus sonhos começando a se realizar. Parece que morro um pouco a cada dia mesmo querendo viver. Me sinto fraco, perdido vendo as pessoas que amo, preocupadas, tristes me parecendo incapazes de serem felizes. Me sinto culpado por tudo e isso vai me matando aos poucos e luto para que essa tristeza não chegue até meu coração. Depois de tudo o que passei tenho quase certeza que meu coração não aguenta... Parece que morro um pouco a cada dia...