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domingo, 23 de maio de 2010

SENSORES


Eu cheguei em casa muito puta da vida. Todas as vezes que eu voltava do trabalho tinha que obrigatoriamente passar em frente daquele condomínio. Não tinha outro caminho. Todos os dias era a mesma coisa. O rapaz que trabalha na portaria do prédio insistia em mexer comigo. Parecia até que ele me esperava. Eu já não sabia o que fazer. Eu era uma mulher casada, mãe de dois filhos e não podia ficar agüentando desaforo. Mas, eu sabia que se contasse o que estava acontecendo comigo para meu marido ele certamente iria querer tirar satisfação com o porteiro. Aquela situação começava a me apavorar. Tinha medo de sair sozinha. Achava que estava sendo seguida e que a qualquer hora iam parar o carro e me jogar para dentro e sabe-se lá Deus o que aconteceria. Agüentei isso a meses desde que resolvi para em frente a portaria e falar com o cidadão e se não desse jeito, falaria com meu marido. Aquilo precisava acabar. Toquei o interfone:
- Posso ajudar?
- Pode. O senhor é que fica todos os dias nesse horário?
- Sou eu mesmo. Eu vejo mesmo a senhora passar por aqui todos os dias o mesmo horário. A senhora chega tarde do trabalho.
- Escuta aqui seu cachorro sem vergonha, é bom você para de mexer comigo. Sou uma mulher casada e não aceito esse tipo de coisa. Se o senhor não parar meu marido virá tomar satisfação com o senhor e sabe-se lá o que vai acontecer. Não diga que o senhor não foi avisado.
Nesse meio tempo, uma senhora encostou do meu lado e disse:
- Eu sou a síndica do prédio, posso ajudar?
- Ah que bom que a senhora veio. Esse seu funcionário todos os dias mexe comigo. Eu sou uma mulher casada e não admito esse tipo de coisa. Faz tempo que venho agüentando só que chega uma hora que não dá mais. Chego cansada todo dia pra ficar agüentando palhaçada.
- A senhora está falando do seu Francisco.
- Eu não sei se é do senhor Francisco, Benedito ou do senhor Antonio. Só sei que a senhora tem tomar uma atitude ou meu marido vai vir aqui e ai senhora sabe-se lá o que vai acontecer.
- Seu Francisco venha cá um pouco.
Me sai da guarita um senhor de mais ou menos 70 anos. Cabelos brancos, óculos de grau acentuado e com certa dificuldade para caminhar. Fui logo soltando o verbo.
- Seu velho safado. O senhor tem que ter mais respeito pelas pessoas. Onde já se viu um senhor da sua idade mexendo com uma mulher casada, mãe de dois filhos. Chego cansada e tenho que ficar agüentando desaforo. A senhora dona Síndica tome uma providência, se eu falar para meu marido e ele vier aqui, sabe-se lá o que vai acontecer.
Segurei firme minha bolsa e sai de lá nos saltos. Tinha certeza que a partir daquele momento, eu não teria mais nenhum problema. No dia seguinte, na volta do emprego lá vem eu, bela e formosa tendo a certeza que nunca ninguém daquele prédio mexeria comigo. Ledo engano.
De novo vieram as provocações. De novo aquele velho safado mexeu comigo.
Cheguei em casa louca da vida e chorando. Logo meu marido perguntou o que tinha acontecido ai finalmente contei-lhe toda história. Ele ficou muito nervoso. Foi para o quarto colocar uma roupa e disse:
- Vamos resolver isso agora!
Fiquei toda orgulhosa. Esperei meu marido se trocar e fui com ele. Eu só não sabia que ele tinha pegado seu revólver.
Ele suava frio. Chegamos à frente do prédio e a provocações começaram dessa vez de forma tímida. Na frente do prédio, meu marido chamou o tal do senhor Francisco que saiu da guarita meio tímido e com medo.
- Velho safado! Então é o senhor que mexe com minha mulher todo dia? Pois saia pra cá se você for homem. Claro que a gritaria atraiu uma porção de curiosos. Eu só via as cabeças aparecerem na sacada dos apartamentos.
- Senho eu nunca mexi com sua esposa. Vejo ela passar por aqui todos os dias, mas nunca mexi com ela.
- Velho sem vergonha. Assuma! Diga a verdade, seja homem.
- Sou avô, sou viúvo. Jamais mexeria com a senhora sua esposa.
- Pois eu vou mostrar pra você como um homem age quando mexem com a sua mulher!
E derrepente meu marido estava com a arma em punho apontando para aquele senhor desprotegido. Quando percebi que não ia dar certo eu tentei remediar:
- Marido me ouça o susto já valeu. Ele não vai mais mexer comigo. Vamos para casa.
- Não Madalena, esse senhora vai ter que pedir desculpas pra você. Isso não pode ficar assim! Onde é que nós estamos? Venha cá e peça desculpas,
Nisso a síndica já estava aos gritos, os moradores também, carros tentando entrar no prédio, gente querendo sair. O fuzuê estava armado. Foi quando chegou duas viaturas de polícia. Algum morador devia ter chamado. Eles já saíram com as armas em punho pedindo para meu marido largar a arma. Logo foram chegando mais carros de polícia, helicóptero e até reportagem da televisão. Esses canais sensacionalistas.
- Senhor largue a arma e vamos conversar.
Meu marido olhou todos aqueles carros de polícia e percebeu que o negócio tinha ficado sério. Nessa altura eu já me tinha me arrependido e chorava abraçada ao meu marido. Implorava para ele largar a arma.
Ele se abaixou e colocou a arma no chão. Os policiais se aproximaram e o prenderam. Todos nós fomos para a delegacia.
Eu, meu marido algemado, a sindica, o senhor Francisco e algumas testemunhas.
Na frente do delegado eu contei toda a história e ele me disse:
- Senhora Madalena, me explique como é que o senhor Francisco aqui assediava a senhora.
- Todos os dias quando chego do trabalho passo em frente ao prédio onde esse senhor trabalha e conforme eu vou passando ele vai acendendo as luzes. Como se eu estivesse numa passarela. Vou andando e ele acendendo uma luz por vez.
Nesse momento houve um grande silêncio. Todos se olharam e vi meu marido num canto ficando vermelho e devagar se escondendo, se abaixando. A síndica chamou o delegado e o advogado do condomínio e pediu licença. Eu não sabia o que estava acontecendo. Não era possível que mais uma vez a justiça iria falhar. A vítima sou eu.
Depois de cinco minutos, volta o delegado rindo, o advogado rindo ainda mais e a síndica que me olhou com dó.
- Sra. Madalena, posso afirma que tudo isso é um engano. Senhor Francisco aqui nunca mexeu com a senhora.
- Ele mexe sim. Todos os dias eu vou passando e ele acendendo as luzes. Doutor sou uma mulher de família. Sou casada, trabalho, tenho dois filhos. Não posso aceitar isso.
- Senhora Madalena a senhora nunca ouviu em falar em sensor de presença?
- Não senho!
- É um sistema de segurança que funciona com sensores. No caso do prédio onde esse senhor trabalha o que existe são sensores de movimento. Quando esse sensor identifica um movimento na calçada, ele acende uma luz indicando que aquele lugar está protegido. Isso só acontece a noite. Não era o senhor Francisco que acendia as luzes. O sensor ao perceber sua presença, fazia com que as luzes acendessem. Uma proteção. Segurança.
Eu não sabia onde enfiava minha cara. Sai de lá sem cor e ainda por cima meu marido com um processo por porte ilegal de arma. Eu não passava mais na frente do prédio, nem no outro lado da calçada. Meu marido até hoje não fala comigo.
Depois de um tempo, tivemos que por vergonha vender nossa casa e se mudar de lá.
Sensores de movimento. Por que não me avisaram antes.


sexta-feira, 5 de março de 2010

DONA CATARINA

Dona Catarina era uma dessas coroas cinquentona que passava a perna em muita menina de 20 anos. Loira de cabelos lisos, seios avantajados, abusava dos decotes e sempre com as belas pernas de fora. Mal o dia começava e lá ia Catarina como gostava de ser chamada, na padaria. Sempre elegante em cima dos seus tamancos de madeira, nunca se viu Catarina sem maquiagem, sem perfume, sem sua saia jeans e suas blusas gentilmente decotadas. Apesar da aparência apelativa, Catarina era uma mulher que não permitia saliências. Era discreta. Viuva e mãe de duas meninas já criadas e morando no exterior, se dava ao luxo de sexta-feira a noite ir ao baile da terceira idade. dançarina de primeira, ainda causava ciúmes nas outras mulheres. Pela exuberância, pela simpatia, por dançar bem. Os homens queriam dançar a todo custo com ela. Catarina não queria saber. Seu coração e pensamento estavam voltados para o Carteiro Seu Juarez. Um solteiro convicto, religioso com 45 anos ainda morava com a sua mãe Dona Isaura. Mulher de hábitos rigorosos. Ia rigorosamente na missa todos os dias e era amississíma de Catarina que por sua vez, arrastava um caminhão pelo seu filho.
Todas as terças e quintas feiras que ela sabia que Juarez passava para entregar as cartas, posicionava-se na janela exibindo o belo par de tetas. Juarez sério que era, mal se continha. As bocas daquela pequena cidade falavam que ele ainda era virgem. Assim que via Catatina na janela, começava a suar. Um dia, sem querer ou querendo, torceu o pé bem na porta da casa de Catarina que prontamente se ofereceu para ajudá-lo convidando para entrar. Acomodou-o confortavelmente na poltrona, tirou-lhe as botas e num gostoso escaldapé, massegou-lhe os pés. Ela sentava em um banquinho à sua frente, deixava aberta a visão dos seios. Juarez não sabia se olhava os seios, se relaxava na massagem ou se aproveitava dormir. Dormiu.
Catarina secou-lhe gentimente os pés enquanto o marmanjo ressonava. Pé ante pé, foi até o quarto e pensou em algo que pudesse atraí-lo para lá. Colocou alguns fracos de remédio no chão, acendeu uns incensos do amor e começou a gritar. Juarez prontamente veio assustado e encontrou Catarina na cama gemendo de dor. Pernas à mostra e pés nus, apertava o tornozelo simulando uma queda:
- Juarez fui apanhar um remédio no guarda-roupa e acabei como você torcendo o tornozelo. Senta aqui e faz uma massagem pra mim!
- Dona Catarina, isso não é uma boa idéia.
- Vem Juarez, eu estou pedindo. Tá doendo demais. Vem, senta aqui. E apontou para a enorme cama. Juarez timido que era e plenamente obediente aos desejos das mulheres. Sentou e começou massagear o tornozelo de Catarina que já estava entregue. Devagar Juarez foi subindo as mãos pelas pernas e coxas de Catarina que baixinho suspirava de prazer. Sentia o suor escorrendo pelo rosto. Coração acelerado, respiração descontrolada não conseguia mais resistir e quando finalmente ia tocar o sexo voraz de Catarina, ouviu alguém batendo na porta de entrada. Pela força e pela voz rouca, pode perceber que era sua mãe:
- Catarina sua labisgoia, manda meu filho sai dai de dentro. Eu sei que ele está aí...
Juarez deu um pulo e caiu em cima de Catarina que o empurrou-o jogando-o no chão. Não sabiam o que faziam. Catarina tentou se recompor e jogou Juarez para dentro do banheiro, ligou o chuveiro, tirou a roupa e começou a tomar banho. Juarez olhava tudo sem piscar. Viu pela primeira o belo corpo de Catarina. A pele branca, as curvas bem torneadas, joelhos, sexo, seios de bicos rosados. Estava paralisado enquanto ouvia sua mãe bater desesperada na porta. Dona Isaura conhecia bem as investidas de Catarina. Na verdade a cidade toda sabia...
Catarina paciente enrolou-se em uma toalha branca e saiu. Cabelos molhados, água ainda escorrendo. Foi até a sala abriu a porta e começou a falar com Isaura:
- O que você quer? Seu filho não está aqui e se tivesse seria bom demais. Ele é adulto já Isaura.
- Você para de dar em cima do meu filho. Eu sei que ele está aí sim. Dona Filomena da paróquia viu ele entrando na sua casa!
- Aquela mulher é louca e gaga além de ser cega.
- Pois me deixa entrar. Juarez, Juarez meu filho.
Catarina tinha esquecido das botas e a da sacola do Juarez. Quando Dona Isaura olhou para dentro logo reconheceu as botas do filho. Empurrou Catarina com força e entrou.
- O que é isso daqui Catarina? Você agora calça 43 e é carteira?
Dona Isaura descontrolada entrou casa adentro e encontrou o filho paralisado no banheiro.
- Meu filho o que essa mulher fez com você meu filho!?
...

quinta-feira, 4 de março de 2010

OLHARES

A idade chegou.
Querendo ou não a idade chega. Chega para mostrar se melhoramos, se aprendemos ou não...
Eu aprendi muito... Aprendi a decifrar gestos e olhares.
Estávamos começando na mesma empresa. Turmas diferentes. Ela uma menina. Eu um homem. Meninas nunca me atraíram. Nunca me chamaram a atenção. Sempre pensei que meninas mais novas eram chaves de cadeia. Mas ela passava por mim e seus olhos mergulhavam nos meus. Era algo assim muito rápido. Ela olhava e não sustentava o olhar. Diferente de mim. Sempre olhei firme e nunca desviei meus olhos. Ela passava e olhava e saia. Passava olhava e saia.
Sempre fui um homem discreto. Jamais dei chance para que pudesse levar um fora de alguma menina ou mulher. Nunca dei minha cara a tapa. Sempre busquei certezas antes de me arriscar. Com aquela menina não seria diferente. Uma coisa eu aprendi e não esqueço, mulher é algo imprevísivel. Quando você pensa que tem ela sobre seus domínios e ela que está te dominando.
Como sempre, não faria nada até ter a certeza. O que eu fazia, era me aproximar, cercar sem contato. Ela passava e olhava no fundo dos meus olhos. Não posso dizer que ela era uma mulher bonita. Deveria ter entre 19 e 20 anos. Não era uma mulher ainda. Uma menina crescida. Mas a maneira como ela me olhava me deixa nervoso e sem graça. Fui cercando, cercando até que um dia nos esbarramos no corredor. Foi inevitável o contato. Ela me olhou, sorriu e pediu desculpas. Disse que andava meio distraída. Eu me fiz de rogado e disse que a culpa era minha.
- Tenho visto você sempre sozinha, não tem amigos aqui na empresa?
- Ah sou nova aqui e ainda não me enturmei. Mas sempre te vejo sozinho também.
- Não sou de me enturmar. Gosto de ficar mais na minha. Olhar, observar...
- Hum... Entendi... Bem então não vou tomar seu tempo. Vou deixar você observar mais.
- Estou indo tomar um café! Você quer?
Ela aceitou prontamente.
Fomos caminhando e eu pude olhar cada vez mais para aquela menina. O rosto é angelical. Tinha a pele branca. Os cabelos eram bem cacheados e negros. Tinha os lábios bem torneados. Olhos envolventes...
- Quantos anos você tem?
- 25 anos.
- Mesmo? Parece tão menina. Pensei que tivesse uns dezenove anos.
- Não. Já fui noiva, engravidei, abortei... Tenho uma história já.
- Ninguém diz isso olhando pra você.
- Como dizem; as aparências enganam.
Assim começamos uma amizade. Almoçávamos juntos, café juntos, saíamos juntos. O que era simples, começou a ficar inevitável. Devagar foi-se criando a necessidade de estar e aquela que para mim era uma menina foi se transformando em uma mulher. Uma mulher madura e vivida. Vi isso em seus olhos e quis me enganar. O jogo de sedução foi ficando mais forte, fomos devagar nos envolvendo. Sabendo cada vez mais um do outro. Ela me fazia voltar a ser um garoto... Começou a se transformar em uma linda mulher...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

DUAS VIDAS

Meu nome é Manuela, tenho 32 anos, solteira, não tenho filhos, não tenho marido, namorado, não tenho na verdade ninguém. Moro sozinha em um apartamento de um bairro classe média. Vigésimo terceiro andar. Tenho a sensação que o mundo é bem menor do que parece. Da sacada do apartamento consigo dimensionar o quão insignificante somos. Trabalho em uma multi nacional, como secretária executiva. Tenho meu carro, meu apartamento e uma família destroçada. Mãe com problemas psicológicos, pai alcolatra e irmãos que não fazem nada. Eu também não faço nada diante do que deveria fazer. Resolvi abrir deles e viver minha vida. Cansei de ser a filha mais velhas. Cada um que cuide da sua vida. Mando dinheiro todo mês e eles que se virem. Eu cuido de mim. Sou crítica, metódica, organizada, limpa. Não conseguiria viver em meio a gatos, cachorros, abandono. Sempre fui independente. Estudei muito, trabalhei duro. Nunca pedi nada para ninguém. Sou bem resolvida. Não preciso desse amor de hoje em dia. Tenho o homem que eu quiser e a hora que eu quiser. Não quero ninguém na minha cama por mais de uma noite. Detesto acordar e ver roupas jogadas, banheiro molhado. Gosto de ordem. Sexo é apenas uma maneira de aliviar a tensão e o estresse. Não sou santa. Não combina. Santas e cama não combinam.
Naquela manhã de Outubro acordei tarde. Sábado nublado. Fiz uma hora de esteira, tomei meu banho e sai para tomar meu café de rotina na padaria que ficava a uma quadra do prédio onde eu morava. Eram poucos passos, Chegava, pedia meu café, sentava e ficava olhando o movimento das madames com seus cachorros. Não entendia como uma pessoa saia com seu cachorro e ficava em seguida recolhendo suas fezes. Não combinava com animais. Não conseguia me ver abaixando e recolhendo dejetos de um cão. Meu telefone tocou. Pelo identificar vi que era da casa dos meus pais. Eles moravam em uma cidade vizinha. Uma hora indo de carro. Era um dos meus irmãos dizendo que meu pai estava internado em coma. Havia bebido demais. Caiu e bateu a cabeça. Seu estado era grave. Eu não queria me envolver. Desde pequena nunca me envolvi. Fazia o que tinha que fazer e nada mais me interessava. Quando era apenas eu, meu pai e minha mãe tudo estava bem, mas depois que meus irmãos gêmeos nasceram, nada mais era para mim. Eu era criança, eu não entendia e eles não me fizeram entender. Cresci com a magoa do desprezo. Vi minha mãe se acabar por causa do vício do meu pai que começou a beber assim que perdeu um emprego de mais de vinte anos. Gastou o dinheiro em jogos, mulheres e bebida. Foi ai que percebi que minha família não era a dos sonhos e que eu precisava cuidar da minha vida. Mesmo diante de tudo isso, não podia deixar meu pai em um hospital qualquer. Peguei meu carro e fui ver meu pai. Chovia e eu era uma dessas pessoas que não gostava de dirigir com chuva. A estrada era horrível e numa dessas curvas, capotei com o carro...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ARREPENDIMENTOS

Ninguém na sua mais perfeita consciência, entra em um relacionamento para perder ou para viver apenas alguns momentos de felicidade. A felicidade de um relacionamento não é algo do dia para a noite. Leva tempo.
Quando entrei naquele relacionamento, eu sabia que só tinha a perder e que era um relacionamento com prazo de validade. Dia para começar e hora para terminar. E eu perdi. Minha paz. Ela era jovem, bonita, inteligente, independente. Tipo mulher que sabe o que quer e ela sabia. Nos conhecemos por acaso. Coisa de destino. Eu estava bem. Trabalhava, estudava. Tinha família e os amava. Ela morava só num apartamento na Frei Caneca. Perto da faculdade. Eu estava na entrada da faculdade e ela passou. Irresistível. Parecia mesmo uma caçadora. Conhecia suas presas. Sabia da sua beleza e do seu poder de sedução e eu me achando o mais bam-bam-bam de todos cai no jogo. Entrei de besta. Mesmo sabendo qual seria o resultado no final. Ela passou por mim e lançou um olhar que me atravessou a alma. Depois o perfume que me deixou petrificado. Eu queria saber mais. Precisava. Ela era a caçadora e eu a isca. Ela andava devagar. Ancas largas. Calça branca, salto alto. A blusa de um tecido esvoaçante, deixava o ombro a mostra. Um rosa leve. O sutiã era da mesma cor da blusa. Percebi pela alça exposta. Caminhar leve. Parecia estar desfilando. Os cabelos eram na altura do ombro. Negros e levemente ondulados. A bolsa era de grife apesar de eu não conhecer nenhuma. Por favor não me pergunte a cor. Sou péssimo para isso. Ela entrou em uma lanchonete e eu entrei atrás. Me posicionei perto. Não queria perder nenhum gesto. Queria olhar de novo para aquele rosto. Ela não poderia ter mais de 25 anos. Deveria ser estudante também. Percebi o pedido. Uma garrafa de água. Sentou-se, abriu a bolsa, tirou o celular e um maço de cigarros. Acendeu sem cerimonia e deu uma leve tragada. Eu ali, perdendo aula, viajando no que poderia acontecer. Já imaginava ela numa cama bem macia, me envolvendo com seus beijos, com seu corpo. Percebi que ela tinha seios volumosos. Tudo isso me deixou ainda mais euforico. Parecia um bobo. Pedi um refrigerante e fiquei disfarçando sem ter coragem para um abordagem. Nunca fui bom com essas coisas. Se dependesse de mim, iríamos ficar alí. A lanchonete era na verdade um café. Tinha muitos livros, cds, música, espaço para bate papo, leitura, video. Algo bem confortável. Com os olhos dei uma volta pelo local e pude ver o tipo de pessoas que frequentavam aquele espaço. Eram pessoas bem descoladas. Senhores que liam jornais. Mulheres com amigas degustavam um café. Fiquei distraído e quando dei por mim, ela me olhava. Parecia que lia meus pensamentos. Soltou um leve sorriso e me chamou com dedo. Algo do tipo: vem aqui vem. Senti meu rosto pegar fogo. Levantei e fui até ela, totalmente sem graça.
- Olá, sente-se. Você estava na porta da faculdade não estava?
- Estava sim. Está muito quente e como não tenho a primeira aula vim tomar um refrigerante.
- Ah que pena! Pensei que você tinha vindo atrás de mim.
Naquele instante eu já não tinha mais como fugir.
- Para ser sincero eu vim sim atrás de você. Mas não me pergunte porque!
- Eu sei porque. Você quer me comer? Tá cheio de tesão.
- Não. Imagina. Achei você muito bonita, achei que...
- Achou que poderia encontrar em mim uma mulher para saciar seus desejos... Sabe, eu também de gostei de você. Quando passei e te vi alí parado eu disse para mim - esse homem eu levaria para a cama. Quando vi que veio atrás de mim, fiquei molhada.
- Nem sei o que dizer.
- Apenas diz no meu ouvido que você quer me comer!
E me puxou pela camisa me levando bem perto do seu ouvido. Eu sem pensar disse:
- Eu quero comer você!
Ela levantou, pegou pela minha mão, esperou que eu pagasse pela água e pelo refrigerante e me levou para fora. Deu sinal para um táxi e me jogou dentro. Indicou ao motorista um hotel alí na região mesmo. Eu não pensava em nada. Estava excitado. Ela me beijava, colocava a mão em minhas coxas, acariciava meu peito. Eu podia sentir aquela mulher em minhas mãos. O seu perfume, seu hálito, seu calor. Ela conduzia-me da forma que bem entendia. O táxi parou e descemos. Paguei pelo táxi. Na portaria ela comprimentou o porteiro, pegou a chave e me levou até o elevador. A porta abriu e eu não pensava mais em nada. Queria apenas comer aquela mulher. Fomos para o décimo segundo andar. A porta do apartamento se abriu e pude ver um pouco da sua intimidade. Era com certeza um flat. Quarto, sala e banheiro. Tudo bem arrumado. Ela não queria saber de nada. Foi tirando a roupa e mostrando a belo corpo. Seios fartos e firmes. Uma pele de veludo e um olhar de quem realmente sabia o que queria. Ficou apenas de calcinha e salto alto. Tinha tatuagens pelo corpo, piercing no umbigo. Unhas longas. Me puxou para o quarto e disse:
- Você quer me comer quer?
- Quero!
- Então diz, diz que quer me comer?
- Eu quero comer você...
(continua)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SOLIDÃO

A solidão foi comendo tudo que havia em mim.
Já não conseguia pensar direito e o que via, eram sombras. Sombras de tudo o que vivi.
Havia culpa demais em mim. Nada do que eu fizesse ou do que tentasse fazer, diminuiria aquela sensação. Eu estava sozinho. Muitas vezes eu chorava nas tantas noites que não conseguia dormir. Eu sabia. Eu sempre soube.
Ainda restava o prazer do abraços vazios dos meus filhos. Uns eram pequenos e não me condenavam. Os outros já me conheciam um pouco melhor.
Aos poucos fui morrendo sem perceber. Já não tinha ânimo para mais nada. O trabalho era a única forma que havia de esquecer por um momento. A solidão corroía meu eu. Estava tudo estampado em mim. Tatuado em minha alma. Fui definhando. Comia mal, dormia pouco. Tentava disfarçar e viver. Mas sentia a vida fugindo de mim.
Meus pais estavam distantes. Amigos eram nenhum. Família duas desfeitas. Morando numa casa fria, sem vida. Nada mais me dava alegria. Tentei remediar, consertar, mas algo ainda queimava em mim. As ruas sempre sem ninguém. Avenidas, vielas, becos.
A solidão fez de mim escravo. Tirou toda a cor do meu dia. Me condenou a vagar por aí. E vago por ai. Rastejando, comendo o resto que me é de direito. A mesa sempre vazia. A cama sempre fria.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

PRA BEM LONGE*

Ele estava prestes a desistir de tudo. Não havia mais nada que o fizesse ficar.
O amor que sentia já não era mais suficiente. Precisava desesperadamente de um novo lugar. Um lugar onde não cenhecesse ninguém. Onde pudesse andar despreocupado. No fundo, ele sabia que não havia um lugar onde ele pudesse esquecer tudo. Podia mudar para o fim do mundo que seus problemas iriam acompanhá-lo.
Tudo estava dentro de sua cabeça. Ele já não conseguia pensar em uma saída. Queria apenas se livrar de tudo. Da roupa apertada, das palavras tão pesadas e cheias de cobranças. Até sua esposa que fora sua companheira para tudo, também já não o agradava mais. Os filhos, a casa, a empresa, amigos.
Ele perdera mesmo a vontade de fazer acontecer. Ele era um guerreiro cansado. Um guerreiro que volta da guerra pior. Cheio de problemas, cheio de cicatrizes. Às vezes era pego em viagens. O olhar ficava parado e mesmo que o chamassem, ele permanecia ali, em transe.
Um dia, acordou decidido a mudar tudo.
Colocou seu jeans, o tênis que havia ganhado da mulher, a camisa que havia ganhado dos filhos. Deixou objetos pessoais. Nada que o pudesse identificar. A mulher ainda dormia, os filhos também. Como era hábito ele acordar cedo, não houve suspeitas e nem alguma desconfiança. Desceu para a cozinha, bebeu quase um litro de água, pegou apenas o dinheiro que havia na carteira, cerca de duzentos e trinta reais e saiu de casa. Saiu andando a esmo. Nada se passava por sua cabeça. Não havia pensamentos. Não havia mais aquela angústia, nem mais aquele tormento. Andava apressado como se quisesse mesmo fugir de suas sombras. Andava como se quisesse deixar para trás todos os seus desamores e desafetos. Foi para o metrô, depois para a rodoviária. Olhava para tudo e tudo era vazio. Buscava um lugar para onde pudesse ir. Passou por todas as bilheterias e não encontrou destino certo. Estava com pouco dinheiro. Descobriu um lugar em Goiás. Preço da passagem duzentos e quinze reais. Era longe o suficiente. Mais de mil quilometros de distância. O ônibus faria o percurso em quinze horas de viagem. Embarcou com a maior tranquilidade. Estava sereno. Sentou-se no lugar marcado. Lado esquerdo, poltrona vinte e sete, na janela. Fazia calor. Abriu a janela e começou a ver tudo sendo deixado para trás.
No ônibus, poucas pessoas. A estrada era longa. Carros e mais carros. Fumaça, poluição. O céu queria ficar azul mas não conseguia.
Devagar ele foi se desligando de tudo. Uma espécie de amnésia. Não queria pensar em nada que fizesse com que se arrependesse, em nada que o fizesse voltar. As janelas abertas e o vento davam uma sensação de liberdade. Sentiu o estômago vazio. Lembrou que estava apenas com um copo de água. Iria esperar a parada para comer alguma coisa. Tinha apenas quinze reais para mais de quinze horas de viagem. Não queria se preocupar com isso. Queria colocar sua fé a prova. Sua crença. A primeira parada demorou. Estava exausto. Suado. Foi até o banheiro lavar o rosto e as mãos. Tudo estava muito sujo. Não havia sabonete e nem papel para secar as mãos. O espelho estava em pedaços. Não queria se olhar e ver seu rosto. Queria esquecer sua fisionomia. Esquecer tudo. Foi para o restaurante. Olhou tudo. Não queria gastar o pouco dinheiro que tinha. Comprou uma garrafa grande de água e um pacote de bolacha salgada. Voltou para o ônibus e continuou sua viagem. Não tinha noção de onde estava e nem que horas eram. Adormeceu...
A tarde foi caindo mansamente e bem no início da noite o ônibus fez mais uma parada.
O lugar parecia o sertão. Não havia nada perto. Apenas caminhões carregados que iam e vinham. Havia muita poeira e muita sujeira. Fui de novo ao banheiro. Não havia uma torneira intacta. Os vasos entupidos causaram ânsia. Saiu de lá enjoado. A fome apertou mais. Tinha ainda um pouco de dinheiro. No restaurante havia algumas pessoas jantando. Viu o preço e resolveu jantar. Comeu apressado pois logo o ônibus sairia. O prato tinha carne, batata, arroz e feijão. Pelo jeito tudo feito às pressas para atender as pessoas que passavam por lá..
Comeu e pediu para que enchessem a garrafa com água.
Voltou para o ônibus, sentou e viu a noite clara de um céu estrelado.
Um céu como nunca havia visto. Estrelas brilhando. Todas juntas e uma lua tímida.
Pela primeira vez lembrou-se dos filhos. Das noites em que ficavam deitados no chão do quintal tentando contar as estrelas do céu.
Sentiu uma angústia, uma dor, um remorso. Viu nas estrelas o rosto dos seus filhos aflitos. Desesperados com o seu sumiço. O ônibus ia sair quando ele pediu para parar. Ele ia voltar. Voltar dali. Desceu desesperado e o ônibus partiu.
Foi em busca de um telefone. O único que havia estava quebrado. Ficou sem saber o que fazer. Num lugar distante, de noite, sem dinheiro, sem telefone. A angústia aumentou. Foi até o restaurante e pediu para usar o telefone. Não havia. Começou a entrar em uma espécie de paranóia. Começou a gritar, a ameaçar. O dono do restaurante junto com uns caminhoneiros o pegaram e jogaram-no para fora. Antes bateram muito nele. Socos, chutes, pontapés.
Saiu machucado. Ficou sentado no chão, sentia dor, sentia o sangue escorrer.
Depois de tudo fechado, altas horas da madrugada, ele estava deitado no chão cru quando Teresa se aproximou com um pouco de água e um pouco de comida. Não falaram nada. Apenas se olharam. Ele comeu e bebeu. Ela ajudou ele a levantar e devagar caminharam.
- Perto de casa tem um telefone que funciona. Pode ligar de lá!
- Obrigado.
- O que foi que deu em você? Querer brigar, gritar, quebrar as coisas!!!
- Desespero!
Continuaram andando em silêncio. O sangue continuava escorrendo. Tentou dizer alguma coisa mas não aguentou e caiu, desfalecido... (Continua)