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quarta-feira, 16 de julho de 2014
EXPOSTOS
terça-feira, 15 de julho de 2014
PAIXÕES PLATÔNICAS
O AMOR
O amor é uma aberração. Alienação. Escravidão.
Só sabe amar quem já amou. Só sabe o que é o amor, quem foi amado de verdade por alguém.
Amor é se perder no outro. É descobrir que na teoria do amor, nada vale. Nada é verdade. Nada se encaixa. Amor não se fala. Cala-se.
Amor é o sem sentido. O sem explicação.
Amor ...sem paixão é casualidade, especulação. É o medo de ficar sozinho.
Amor é renúncia. É querer sempre. Estar sempre. É conexão. Afeição.
Loucura. Cumplicidade. Silêncio.
Entender no olhar o que as palavras não dizem.
Amar é sentir a ausência. É morrer de saudades um minuto após a partida.
É esperar na janela. É vestir a alma com o que há de melhor.
É uma droga. Um êxtase. A covardia. O choro. A devastação.
Amor não é coisa de amador. Amor é para gente que tem coragem de se atirar no precipício. Amor é estar do lado ainda que ausente. É viver a vida. É se perder no tempo.
Amor é coisa de louco. Amor é para poucos.
É atrevimento. É aceitar o outro como o outro é.
Uma coisa é preciso saber. O amor é feito de fases. Não tem jeito.
Todo mundo quer mais do que amar, ser amado.
Recém namorados, vivem a paixão do amor intenso. Entregas, descobertas, saudades, doença. O começo do que se quer de verdade. Descobrir afinidades. Erros, defeitos. Descobrir que o outro não é perfeito. É sentir ciúmes, sentir medo e esperar que o outro sinta exatamente o mesmo. Amor que vive grudado. Que quer levar para todo lado. Amor que quer anel de compromisso. Quer versos. Rosas e poesia. Viagens ao Japão, a Cubatão, a Poços de Caldas. Comer fundi em Campos do Jordão e viajar juntos de avião. Perder os amigos, a família, a liberdade. Dar satisfação. Comprar as mesmas roupas no mesmo lugar. Fazer planos. Abrir poupança. Pensar no para sempre.
Amor dos casados. Dos filhos, das contas pra pagar, das conquistas, das tantas e tantas noites ma dormidas. Amor que ensina amar, que ensina a viver, ensina a voar para este mundo de nosso Deus. Amor que não tem tempo de amar. Amor que vive correndo. Que leva na escola, que se vê só na hora do jantar e olha lá. Amor que dá uma rapidinha. Que pega onde dá. Na copa ou na cozinha, na lavandeira. Amor que espera pra jantar e não vem. Espera pra sair e não sai. Espera pra viver e não vive. Amor que vê os filhos crescendo. Descendo a serra para ir para o Guarujá. Cachorro na janela. Adolescente no celular. Amor que se perde junto e olha junto para o mapa. Amor que se beija e se abraça e de novo se descobre em meio a paixão há tempos esquecidas. Amor que deixa os filhos na casa dos avós, pega a mochila e vão os dois juntos para Salvador. Amor onde os dois tomam porre, amor onde se descobre no olhar aquele olhar dos tempos de namorados. O corpo já não é o mesmo. Tem barriga, sem celulite e tem o desejo como chama que não se apaga. Tem namoro de mãos dadas e assistir televisão de madrugada esperando o filho chegar. É chorar na colação de grau, na festa de quinze anos, no casamento do filho mais velho. Amor que paga as despesas, que paga a lua de mel, que ajuda a mobiliar a casa e depois de tudo, voltam a dar risada.
Depois de anos, o amor não tem mais pressa. Senta na cozinha pra ver aquela velha fazendo tutu de feijão esperando os netos chegarem. É ver os sonhos realizados. É contemplar felizes todo o passado e sentir a mesma emoção ao ser abraçado. Amor que ainda beija na boca, amor que sente falta de ar. Amor que carrega no colo, que dá banho. Amor que faz lembrar. Amor que se esquece. Amor que envelhece. Amor que respira com dificuldade. Amor que tem fé que tudo vai passar. Amor que adoece. Que fica prostrado no hospital do lado como se fosse parte do outro. Amor que vê o outro partir e não se entristece. Apenas olha para o céu e sorri.
Amor é droga. É veneno. É prisão que liberta.
De todas as atrocidades e aberrações, não conheço nenhuma outra pior do que o amor.
Amar e ser amado. Sem regras. Sem manual. Sem certezas.
ESCREVER
Não escrevo sobre religião, mas escrevo como sinto Deus.
Não escrevo futebol. Não há mais verdades, nem encantos.
Não escrevo sobre a vida suja, sobre ladrões, sobre nada que contenha a realidade absurda onde vivo.
Não falo de doenças, de vermes, do lixo espalhado por aí.
Falo de amor, de paixão, de desejos e vontades. Escrevo sobre viagens que nunca fiz.
E...screvo besteiras e bobagens.
Escrevo sobre a noite, sobre o dia. Sobre a solidão minha amiga.
Escrevo sobre os beijos que dei e sobre os beijos que queria dar.
Escrevo minha tristeza, minha alegria.
Não escrevo sobre minha casa, sobre minha família.
Escrevo sobre as flores do meu jardim. Das borboletas que voam sobre mim.
Escrevo poesia, contos, fantasias.
Escrevo sem acento, sem interrogação. Livre, despreocupado, leve.
Não rascunho. Escrevo a lápis, de vez em quando digito.
Escrevo o que sinto, como sinto e o que vejo.
Escrevo sobre mendigos, sobre a vida esquecida.
Sobre o velho amor.
Escrevo sobre sexo em forma de poesia.
Não me atreveria escrever meus contos.
A polícia me prenderia. Não escrevo mentiras, nem verdades.
Não escrevo pra criticar, nem pra condenar, muito menos para libertar.
Escrevo nas ruas e avenidas, nos muros já pixados, nos quadros já pintados.
Escrevo o amor que sinto e minhas tantas formas de amar.
Escrevo o que me pedem.
Escrevo romances, crônicas, e-mails.
Histórias quase sempre inacabadas.
Escrevo as pessoas que conheço e sobre as pessoas que eu queria conhecer.
POR QUE ESCREVO?
Não há outra maneira de transgredir a mim mesmo. Não há outra maneira de me tornar mais claro e sincero. Não há jeito melhor de encantar, de seduzir, de mexer com sensações. Nisso tudo, encontra-se a poesia. Que se faz doce em momentos amargos. Que se faz ilusão e um trampolim para sentimentos.
Não comecei a escrever pa...ra me tornar um dom Juan. Seria pretensão minha.
Queria escrever para deixar um pouco dessa inquietude que corroe minha alma. Tinha à vontade de me fazer conhecer. Não queria ser amante. Queria ser amado. Porque amar o amor que se tem é bom demais. Porque verdades ainda são sempre a melhor saída.
Escrevo para acalmar meus monstros, meus fantasmas e exorcizar de vez todos os meus demônios. Ganhei amores, paixões, afetos, desafetos. Quantas vezes me perdi neste caminho de tantos encantos. Conheci a paixão de mulheres que me aqueceram. Conheci sorrisos sinceros. Conheci todos os meus lados. O bom e o mau que há em mim. Quantas vezes despi minha alma. Recebi e me dei.
Escrever dá asas. Liberta e aprisiona.
Escrever é doar o que há nos calabouços de minha alma. São gritos silenciosos. Gritos de uma dor contida. Gritos de amor. Gritos de verdades. Gritos de tantas mentiras.
Escrevo para aliviar esse fardo de ver tudo com outros olhos. De sentir tudo com muito mais intensidade. Escrevo para dar um pouco desse tanto amor que há em mim. E amo, mais e mais e cada dia mais.
Escrevo para manter minha lucidez. Escrever é meu álcool, minha droga, meu êxtase.
Escrevo para poder chorar minhas angústias. Sem medo, sem amarras, sem nada. Escrevo para dar sentido ao sem nexo. Para me fazer louco. Para poder amar todos os amores que quiser e como quiser. Escrevo porque só assim me sentirei completo, verdadeiro.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
DE VOLTA PARA CASA
De volta para casa
Imagine só, segunda-feira, saída do expediente às 18h00min.
O céu está carregado. Vem chuva por aí. A fila do ônibus está imensa. Só de pensar que vou demorar mais ou menos duas horas para chegar em casa, desanimo. Nada de interessante. As mesmas pessoas de sempre. O mesmo desconforto e eu me perguntando por quê? Será que vou morrer sem ver o brilho do sol nos meus dias?
Me conformo. Ligo o mp3. Presente do dia dos pais. A bateria está descarregada. Vejo uma menina comendo pão de queijo e sinto meu estomago revirar, abro a carteira, encontro apenas minha identidade castigada como eu pelo tempo, uma imagem de nossa senhora e uma moeda de dez centavos.
Finalmente um ônibus encosta. Um desses ônibus enorme, bi articulados. Coisa de cidade grande. Encho meu peito de esperança. Tinha certeza que desta vez eu ia poder ir sentado. Poderia cochilar e esquecer todo esse perrengue. A fila começa a andar. Estou quase no final da fila. Vejo as pessoas se acomodando. Parece que não tem fim. Um a um como nos tempos de escola.
Começo a ficar aflito. Os lugares vão sendo ocupados. Quero desesperadamente contar quantos lugares ainda sobram. Não consigo. Alguns idosos aparecem e tem preferência de embarque. Deixo de lado minha cidadania e começo a xingar aqueles velhos filhos da puta em pensamento. O que fazem esse horário na rua?
Consigo entrar no ônibus e olho na busca desesperada de um lugar. Duas pessoas na minha frente para passar a catraca. Olho e percebo que há dois lugares. Os olhos correm desesperados. Os meus e os dos outros. Passam e ocupam os lugares. Eu vou de pé até o fim do mundo.
Olho desolado, imaginando qual dos passageiros podem descer num ponto mais próximo. Olho um rapaz com estilo de boyzinho. Parece que não iria para o fim do mundo. Estava sentado no corredor perto da porta de saída. Era um sinal. Fiquei perto dele em pé. Rezando para que ele descesse no ponto mais próximo. E assim, o ônibus iniciou sua peregrinação. Uns já estavam desmaiados. Outros mexiam no celular. Alguns liam e outros como eu, iam pensando se a morte não seria a melhor saída. Eram mais 18h30min quando o ônibus saiu. Eu de pé amaldiçoando aquele rapaz que eu nem conhecia. Ficava xingando em pensamento. Todos os palavrões que alguém pode imaginar e os que não podem também. Rezava o credo, a ave-maria, o pai nosso para aquele infeliz levantar e eu poder sentar e descansar um pouco.
Ele começou a se arrumar. Olhava para fora como se procurasse um lugar ou alguém e como num milagre, ele levantou e antes que desse o primeiro passo eu já estava sentado em seu lugar. Respirei aliviado e pedi perdão para Deus por tê-lo xingado. Me ajeitei no banco. Do meu lado um homem já estava no quinto sono. O tempo fechado. O transito parado e eu nem ai. Já estava sentado. Não me preocupava mais com nada. Derrepente começou a cair o mundo. Uma chuva que vinha de todos os lados. Eu abria somente um olho para ver a situação e foi ai que o caos se instalou. Foi ai que senti que Deus estava se vingando de mim. Foi então que eu percebi que tinha nascido verdadeiramente pra me fuder e que milagre na vida de pobre é mau sinal. Eu estava sentado embaixo da tampa de ventilação e inevitavelmente pingos começaram a cair em minha calça, depois na minha blusa e depois no meu rosto, na minha cabeça. Nessas alturas eu olhava para cada gota que caia como se eu pudesse desviá-la. Olhava para aquele buraco no teto do ônibus e com a força do pensamento, tentava parar aquela enxurrada em meu rosto. Nada fazia aquilo parar. Eram gotas grossas, densas. Eu sabia que chovia mais em mim do que em qualquer outra pessoa no mundo e eu me perguntava apenas, por quê?
Eu xinguei Deus, Jesus, todos os discípulos, a Virgem Maria, os anjos, arcanjos, querubins. Não havia nada que pudesse me acalmar. Eu queria apenas descansar. Sabia que ia demorar para chegar em casa. Que mal ia ter tempo de beijar minha mulher, meus filhos. Mal ia ter tempo de jantar, tomar um banho, dormir que eu já teria que acordar e começar tudo de novo.
Cada pingo me fazia pensar em tudo. Olhava as pessoas em seus carrões. Olhava as pessoas paradas nos pontos de ônibus. Pensava se podia no mundo ter alguém pior do que eu. Procurei dentro de mim, algo que pudesse me trazer paz, mas cada pingo daquele em meu rosto, ia me fazendo cada vez mais odiar o mundo. Não sei quanto tempo fiquei ali me remoendo. Eu sabia que não levantaria dali por nada. Fiquei me consumindo.
O homem que estava desmaiado ao meu lado acorda num sobressalto e olha assustado para fora e diz: - passei meu ponto e alucinado deu sinal para o motorista. Ia descer no próximo ponto. Eu feliz da vida sentei em seu lugar. Ainda estava quente e eu nem reclamei. Amei. Me aconcheguei e agradeci a todos os santos. A Deus, a Nossa Senhora, anjos, arcanjos e querubins. Fechei os olhos e me vi abraçado a minha esposa e aos meus filhos.
Alguns quilômetros na frente e o ônibus começou a engasgar. Eu nem me mexi. Não arrisquei abrir os olhos. Não podia acreditar. O ônibus parou e o motorista gritou. – Pessoal este não anda mais. Vamos esperar o próximo. Eu fiquei ali fingindo que dormia. Não queria acreditar. Escutava as pessoas falando alto, xingando e eu ali fingindo que estava morto. Logo começaram me cutucar. Um desespero para me tirar dali e eu queria ficar ali mais cinco minutos. Desci desconsolado. Olhei para o céu e disse: Valeu senhor, muito obrigado.
A chuva havia diminuído e depois de passarem por nós cinco ônibus lotados, consegui embarcar. Fui em pé. Massacrado, pisado, esmagado. Cheguei em casa depois de três horas e meia.