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domingo, 20 de dezembro de 2009

CULPAS*

Claro que a culpa foi minha.
Claro que procurei chifres em cabeça de cavalo.
Claro que tenho que escrever em primeira pessoa. Para que mentir? Para que inventar e dizer que não foi comigo que aconteceu? Foi sim, foi comigo e a culpa foi minha. Eu me deixei levar. Queria sentir a emoção de viver todos os riscos e corri e vivi e foi uma "merda".
A mulher era bonita, mas fria demais. Fumava e eu detestava. Era loira e minha preferência são as morenas (eu as acho muito mais quentes). Magra demais e além de tudo isso, na hora "H" perguntou se eu gostava de lingerie vermelha. Odeio lingerie vermelha e para mim nem fica bom mesmo.
Mesmo assim, deixei-me levar.
Parecia que era uma troca de favor.
Ela mentia que gostava de mim e eu fingia que acreditava, mesmo colocando meu casamento em risco.
O engraçado é que quando qualquer coisa começa com mentira, pode apostar que não dá certo. Eu menti, ela mentiu, mentimos.
O pior de tudo é que fizemos juras de amor eterno.
Tranquei a faculdade, tive uma briga de 12 horas com minha mulher que, desconfiada, aproveitou minha ausência para mexer em minha pasta e encontrou um e-mail que eu havia impresso (outra burrice).
Eu desenhei desde sempre uma história diferente.
Achava que ter uma amante era algo bacana, que daria uma nova cor e uma nova emoção para a vida. "Porra" nenhuma!
Acabou com minha inspiração. Foi o tempo que mais deixei de escrever.
O que ela tinha de melhor; o largo sorriso, o abraço e o papo que aconteceu uma vez até às seis horas da manhã.
Eu estava louco ou estava querendo ficar.
Trocar uma relação sólida, um casamento de mais de 15 anos por um relacionamento que não me dava nenhum prazer? Eu era uma besta mesmo!
Ainda se tivesse valido à pena... Que nada.
Ficaram apenas as cicatrizes de mais uma "cagada" e das feias.
Mas eu aprendi. Aprendi da pior maneira. Não se deve gostar de ninguém por fotografia, não deve ceder quando uma mulher pede seu abraço.
Sua mulher é sempre a melhor porque só ela atura você de verdade.
Voltar é sempre melhor.
"Eu te amo", virou moda; lingerie vermelha, é loucura; cigarro de cravo me dá ânsia...
Antes de amar alguém, conheça sua alma, seja antes de mais nada, seu amigo.
Nunca falei disso para ninguém. Mas por que calar? Já estava na hora de tirar de vez essa história de mim. Não quero mais errar como errei e sentir de novo a culpa que eu senti.

domingo, 13 de dezembro de 2009

CONSCIÊNCIA*

Existem acontecimentos que passam em branco em nossa vida e outros que nos marcam definitivamente.
O que aconteceu comigo não passou, ficou, marcou e está presente todos os dias na minha vida.
Certa vez, logo que eu comprei meu primeiro carro, estava feliz, querendo mostrar o carro para todos os amigos e familiares. Eu tinha 22 anos. Sentia-me no auge. Saí com alguns amigos para comemorar. Ficamos em um bar até altas horas. Depois, fiquei responsável de levar cada um para sua casa e assim fiz.
Levei o Carlos para a Região de Santo Amaro, depois o Marcelo que morava na Região da Vila Mariana, a Claudia que morava na região das Perdizes e Roberta, na região central.
Deixei um por um em suas casas e depois fui para minha casa na região leste de São Paulo. Passavam das três e meia da manhã. As ruas estavam desertas.
Quando passava por uma avenida, vi uma mulher acenando.
Seu carro estava encostado no meio fio.
Os piscas alertas acessos. Parecia desesperada. Não pensei duas vezes. Encostei o carro, desci e fui em sua direção. Não podia imaginar o que poderia acontecer. Assim que me aproximei dela percebi que ela não estava sozinha. Dois homens surgiram detrás do seu carro com armas em punho e pediram a chave do meu carro. Não pude fazer nada. Fiquei sem meu carro.
Naquele momento, jurei que nunca mais pararia meu carro para dar assistência para alguém, fosse quem fosse.
Os anos passaram, fiquei muito tempo a pé juntando novamente dinheiro para comprar outro carro.
Trabalhava muitas horas por dia, não saía aos finais de semana, não viajava, não saía com amigos, não fazia nada. Queria minha liberdade novamente. Queria sentir a mesma emoção. Aprendi a não depender de ninguém e naquele momento, o carro me daria tudo o que eu precisava.
Tinha aprendido a lição.
Foram dois anos guardando dinheiro, sobrevivendo. Dois anos de negação a tudo. Não namorava, vivia apenas para o trabalho. Consegui comprar um carro melhor do que eu tinha antes.
Era maravilhosa aquela sensação. Ouvir o barulho do motor. A liberdade de ir a qualquer hora para qualquer lugar. Eu estava muito mais precavido.
Não ficava até tarde na rua, não havia mais esse papo de levar amigos para casa.
Não desviava meu caqminho. Tinha o carro para me servir.
Mas o destino nos coloca sempre entre a cruz e a espada.
Eu havia acabado de deixar um casal de amigos na estação do Metrô e estava indo para casa.
Já passava da meia noite.
Uma cena me chamou a atenção e remeteu-me de imediato ao que acontecera.
Um carro parado, pisca alerta acesso e uma mulher aparentemente grávida estava sentada no chão.
Diminui a velocidade e passei devagar por ela. Ela chorava e pedia pelo amor de Deus que eu a ajudasse. Não ajudei. Fiquei olhando pelo retrovisor e segui viagem. Aquela cena não saiu da minha cabeça. Dirigia atormentado com aquela incerteza. E se ela estivesse mesmo grávida e se ela estivesse mesmo precisando de ajuda?
Parei o carro em um posto de gasolina e liguei para o socorro. Informei o ocorrido e o endereço e fui informado que o socorro estava a caminho.
Dei meia volta e passei novamente no local onde estava aquela mulher. O carro continuava lá.
Outros carros haviam parado. Senti-me mais seguro e parei também. Ela estava na calçada e estava em trabalho de parto.
Escutei a sirene do carro de resgate. Prontamente começaram os procedimentos.
Aquela mulher se contorcia de dor e os paramédicos realizaram o parto ali mesmo.
Um homem também estava desesperado. Era o marido daquela mulher. Ele dizia aos policiais que o carro teve uma pane e ele saiu para pedir socorro pois estava levando sua mulher para o hospital. Na pressa, havia esquecido o celular e tudo mais. Quando chegou, encontrou sua mulher caída.
Ela dizia que um carro passou e que não quis parar para ajudá-la. Enquanto conversava com os policiais, os paramédicos disseram que não foi possível salvar a criança e que a mãe ia para o hospital mais perto pois estava com hemorragia. A ambulância saiu gritando rumo ao hospital.
Eu voltei para o meu carro. Estava abalado. Sem saber o que pensar, sem saber o que sentir. Fiquei pensando... E se eu tivesse parado e socorrido aquela mulher?
Não sei porque certas coisas acontecem em nossa vida... Até hoje não sei ao certo o que pensar...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

COINCIDÊNCIAS

Todo mundo sabe ou deveria saber que São Paulo é um cidade gigantesca. Gente indo e vindo a qualquer horário e sempre. Milhões de pessoas. O que torna a cidade de São Paulo interessante é que por maior que seja sempre se encontra alguém que se conhece ou se conheceu andando pelas ruas. Paulista, Faria Lima, nos shoppings, cinemas, teatros ou até mesmo no centro de São Paulo. Sempre há um rosto conhecido e passos se encontrando.
E foi assim...
Sai da empresa aquele dia as vinte e duas horas. A noite estava abafada, quente demais. Eu não estava com menor vontade de ir para casa. Nunca gostei de dormir cedo. Resolvi pegar o carro e dar uma volta por essa cidade que não para. São Paulo não dorme. Nas ruas muitas pessoas. Bares lotados, rodas de amigos, muita gente. Desci a Sena Madureira rumo ao Ibirapuera. Liguei o som, tirei a gravata. Dirigia devagar, eu não tinha a menor pressa. Passei pelo Ibirapuera, Detran, 23 de Maio, Paulista que eu amava e acabei caindo propositalmente na Rua Augusta, um ponto de prostituição, de boates, cafetões e tudo o que gente solitária procura. Deixei o carro em um estacionamento e fui andar um pouco. Ia passando pelos inferninhos e era quase puxado para dentro. Devagar ia olhando tudo. Resolvi entrar em uma dessas boates. O ambiente era escuro, mas puder ver um grande números de garotas se exibindo. Umas com seios à mostra, outras de bikini, outras aparentemente normais. Parecia um açougue onde vc entra e escolhe um tipo de carne, mais gorda, mais magra, no ponto. Fui até o bar e pedi uma cuba libre. Fiqui alí olhando o movimento. Não pensava em nada. Não demorou e uma garota veio falar comigo, Rápida, direta e objetiva:
- Oi, meu nome é Alice, estava com uita vontade de sair daqui e ir para outro lugar. Tá muito quente e você me parece ser um cara legal.
Eu fiquei olhando aquela menina. Devia ter entre 19 e 20 anos. Não mais que isso. Tinha a pele branca, seios pequenos e um jeito meigo. Se eu a visse andando por ai, não diria que era uma garota de programa.
- Por que eu sairia com você?
- Você não está a fim é só dizer. Virou as costas e saiu. Pude olhar, seria uma bela mulher com certeza. O que será que uma mulher como Alice teria para me oferecer. Ela não deveria ter muita experiência. Fiquei pensando, seria mesmo muito bom sair dali e ter uma companhia agradável para dar um volta. Parei uma moça que passou e perguntei por Alice:
- Faz uns 10 minutos que ela saiu.
Paguei minha cuba e sai. Fui pegar o carro decidido esquecer o que houve e ir para casa. Precisava de um banho e minha cama. Sai do estacionamento e comecei a subir a Rua Augusta. Passando pelo ponto de ônibus vi Alice parada. Parei o carro, desci e fui até ela.
- Oi, eu procurei por você mas já havia saído. Quer uma carona? Deixo você em casa.
- Por que eu devo confiar em você se você não confiou em mim?
- Alice me desculpe, não foi por mal. Nunca vi uma garota pedir pra sair. Achei que isso não acontecesse. Apenas por isso. Deixa eu te dar uma carona?
- Tá bom, mas não estou a fim de ir para casa. Tô com fome.
- Vamos comer alguma coisa.
Ela entrou no carro, jogou sua bolsa no banco de trás, tirou a sandália alta e cruzou as pernas sobre o banco do carro. Estava definitivamente a vontade.
Eu dirigia sem saber ao certo para onde iria com aquele mulher.
- Onde você mora Alice?
- Meu nome não é Alice é Carla. Ana Carla. Eu moro aqui perto no centro.
- Mora sozinha?
- Com minha mãe.
As luzes dos postes passavam sem pressa por nós.
- Tem algum lugar que queria ir?
- Queria comer uma pizza?
- Tá bom. Vamos comer pizza. Eu também estou com fome.
Fomos para uma pizzaria na região do Itaim Bibi. Perto de onde eu morava. Havia uma que fechava bem tarde e eu conhecia. Sempre frequentava lá com amigos. Ela tinha uma boa aparência. Era uma mulher bonita. Sabia conversar. Ficamos ali sentados, bebendo vinho e comendo pizza. Olhei no relógio, eram duas horas da manhã.
- Bem, amei a noite, vou levar você pra casa. Amanhã levanto cedo.
- Tudo bem prevísivel. Só falta você dizer que é casado com uma mulher chata, dizer que está num final de relacionamento, que tem um filho problemático, essas coisas.
- Não sou casado, não tenho uma mulher chata, não tenho filhos, moro sozinho, sou dono da minha vida.
- Ah então vamos para a praia.
- Praia, fazer o que na praia?
- Ver o sol nascer, ver o mar, escutar as ondas.
- Não posso. São duas da manhã.
- Por favor, por favor.
Alguma coisa naquela mulher me fascinava. Não sei se essa falta de compromisso, se o espírito de aventura. A juventude despretensiosa. Sempre me relacionei com mulheres mais velhas. Centradas. Mulheres que adoravam chamar a atenção e que detestavam qualquer aventura. Ir para a praia de madrugada jamais.
- Então vamos, mas bate e volta.
- Bate e volta eu prometo que não vou abusar de você.
Eu confiava naquela menina disfarçada de mulher. Eu acabei de conhecê-la mas eu confiava nela. Abasteci o carro e fomos para o Litoral. Eu estava cansado, mas sem sono. Ela encostou no meu ombro e dormiu. A estrada estava vazia. Meu pensamentos voavam. Pensava em tudo e não pensava em nada. Lembrava da empresa e dos compromissos e esquecia. Pensava naquela loucura que eu estava fazendo e naquela mulher alí. Uma desconhecida. Ela deveria com certeza ter uma história de vida que enlouqueceria qualquer um. Senti uma vontade de protegê-la conseguia vê-la como uma mulher, como uma garota de programa.
Chegamos em Santos as 3 e meia da manhã. Ela acordou quando eu procurava um lugar para estacionar.
- Chegamos meu amor!
Meu amor??? Aquelas palavras me pegaram desprevenido. Senti o sangue ferver.
- Amor, você não tá cansadinho. Vamos para um hotel.
Estava sem palavras. Boate, passeio, pizza, praia e agora hotel. Uma leve excitação tomou conta de mim. Fui em busca de hotel beira mar. Arrumamos um quarto e fomos juntos. Ela agarrou em meu braço até o quarto. Abri a porta e ela foi e se jogou na cama e dormiu. Deitou e dormiu na mesma posição. Tirei suas sandálias, cobri seu corpo e fui tomar um banho. Estava exausto.
Depois do banho deitei do seu lado e dormi. Acordei com o sol na janela. Ela estava deitada em meu peito. Abraçada, jogada em mim. Seu perfume me seduzia.
- Aninha... Ana... Acorda...
Ela se espreguiçou e me beijou a boca ardentemente e nos amamos ali.
Ela sabia muito mais do que eu podia imaginar. Adorei ter amado aquela mulher. Ela é fascinante. Depois do nosso amor gostoso enquanto ela tomava banho eu entrava em contato com a empresa dizendo que só iria a tarde. Descemos para tomar café e acertar a conta. Depois do café, fomos dar uma volta na praia. Molhar os pés e voltar a velha rotina. Aquele amor ainda estava em mim. Posso dizer com certeza que desde que conheci o amor de uma mulher, aquela tinha me pegado de jeito.
Subimos a serra. Ela estava mais calada. Eu também estava calado.
O vento que entrava pelas janelas do carro resfrecavam meus pensamentos.
- Vamos nos ver novamente? - arrisquei perguntar.
- Não sei, pode ser.
E novamente ficamos em silêncio...


CONTINUA

domingo, 29 de novembro de 2009

NADA RESTOU*

Quando ela o conheceu, estava entrando na casa dos dezesseis anos.
Renunciou a tudo e a todos para viver aquele sentimento, e assim o fez.
O tempo, como sempre, implacável e quando nos faz velhos, dá-nos a percepção que antes não tínhamos. Deixa nossos sentidos muito mais apurados e nos faz perceber detalhes que antes não percebíamos.
Por que, então, ela não abria suas asas para voar?
Por que ela ainda se prendia àquela história, se tudo já fora escrito?
Por que ela não rasgava seu peito e se entregava para o mundo?
Talvez o medo. Medo de ficar sozinha. Medo de não saber mais gostar de ninguém. Medo de voar e não ter mais um ninho para pousar.
Assim, passaram-se vinte e seis anos. Tempo de uma dedicação louca. Tempo de uma entrega absurda. Até mesmo uma renúncia tem o tempo certo.
Ela estava triste. Sem vontade de mais nada. Queria fugir para esquecer tudo. Queria voltar renovada para viver, agora, a felicidade que enfim havia encontrado.
Mergulhou de vez nos estudos. Entregou-se de coração.
Começou, enfim, a viver. Começou, enfim, a perceber que a vida não se resumia a um único sentimento. Além do mais, tudo aquilo que vivera, fora superficial demais. Olhava para trás e não via nada. Havia apenas uma estrada vazia. Apenas seus passos e nenhum mais.
Lembro-me uma vez, de uma conversa informal em que ela me confessou que seus sentimentos já não eram os mesmos. De uns tempos para cá, percebi que não eram mesmo.
Ninguém ama por obrigação. Amar assim, deixa de ser amor, deixa de valer à pena.
Agora só havia tristeza e dor. Dor, por acordar sem um carinho. Dor, por se sentir sozinha. Dor, por sentir que nada valeu.
Ela era uma bela mulher. Todos a viam forte e nunca enxergaram nela, a fragilidade, a doçura. Nunca estenderam a mão para socorrê-la. Quem a socorria nos momentos de aflição não está mais entre nós. Ela não conseguia gritar. Não conseguia dizer. Sentia-se pronta para viver sem coragem de bater as asas em busca da liberdade. O seu mundo não era mais o mesmo.
Agora, dois lados; o colorido e o branco e preto.
Queria amor. Amor de verdade. Sem as velhas obrigações. Sem se sentir obrigada a falar o que não tinha vontade. Nada mais a prendia. Sua cabeça fervia. Não queria mais escutar aquelas palavras já tão sem sentido. Não queria mais ouvir aqueles sons à noite. Queria deitar e dormir em paz. Queria apenas se sentir uma mulher de verdade. Sentia-se uma mulher sim, mas pela metade... Tinha asas e ainda muito medo de voar.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

NÃO ERA NADA*

O mais é engraçado é o poder da imaginação.
Imaginar alguém que nunca se viu. Imaginar o cheiro, o gosto do beijo, o calor do abraço.
Eu a conheci através de uma amiga que também não conhecia. Eramos amigos virtuais desses sites de relacionamento que existem. O legal é que você vê a foto da pessoa, lê um perfil que só fala das qualidades. Foi assim que, através de uma amiga virtual, conheci essa outra mulher. Nos tornamos amigos e descobrimos afinidades. Na verdade, desenhamos afinidades. Sempre que se conhece alguém virtualmente, desenhamos tudo. Imaginamos tudo. Não tínhamos nada em comum. Ela estava se separando, após uma traição. Contou-me todos os detalhes. Eu, casado, feliz e sem nenhum tipo de problema, a não ser os que sempre procuro e acho.
Papo vai, papo vem. As tardes foram ficando mais intensas. Nossos bate papos eram sempre frequentes. Intensos. Falamos de tudo. Em poucos momentos ela me perguntou da minha família e do meu relacionamento. Eu estava tranquilo. Adorava conversar com ela. Vê-la na webcam. Ela não morava em São Paulo. Sabia que nada iria acontecer, mas o poder da imaginação, o poder de sonhar, de desenhar o que se quer...
Um belo dia ela disse que viria para São Paulo na casa de uma amiga. Disse que assim poderíamos nos conhecer. Eu disse que sim, sem pensar direito no que dizia. Percebi que não haveria mal algum. Conhecer pessoas faz parte da vida. Conhecemos pessoas todos os dias. Muitas pessoas. Milhares. Disse que sim e marcamos de nos encontrar.
Eu fui sem pretensão. Queria ver se a sensação era a mesma. Real e virtual num mesmo instante. Marcamos de nos encontrarmos de manhã, num café. Ela chegou e se eu me lembro bem, ela estava vestida de branco, cabelos bem mais longos e óculos escuros. Nos cumprimentamos, quebrando o gelo. A sensação não foi nada agradável. Não houve a mesma sintonia. Respirei aliviado. Sentamos, conversamos um pouco. Falei sobre renúncia, sobre encontros. Ela ouviu e sorriu. Disse, em breves palavras, que poderíamos sair dali se tudo fosse diferente. Eu não tive reação. Ela não era nada daquilo que eu imaginava. Eu também não era para ela. Gentilmente disse que precisava ir embora. Havia combinado de sair com as amigas. Paguei o café e nos despedimos. O mais breve contato, foi um selinho e nada mais.
Ela atravessou a rua e sumiu. Tentei contato algumas vezes. Ela deletou seu perfil do site de relacionamento, não atendeu mais o telefone.
O poder da mente de nos levar aonde nem imaginamos. Tudo foi uma grande besteira. Tudo foi uma loucura. A realidade é muito diferente. Não se funde com a imaginação que inventamos.
Minha outra amiga virtual, eu cheguei a conhecer. Virou uma grande amiga. Mas com o tempo também desapareceu.
Pessoas virtuais são pessoas que existem hoje e amanhã, quem sabe...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CORAGEM*

Eu precisava vê-la de qualquer maneira.
Quem sabe assim, frente e frente, eu pudesse dizer tudo o que eu pensava. Mas não sabia como fazer. Morávamos longe, o acesso era difícil. Além do mais, não tínhamos tanta intimidade assim. Eramos próximos e distantes. Difícil explicar. A única certeza que eu tinha é que eu precisava vê-la. Precisava falar. Acordei cedo e fiquei pensando todas as possibilidades para provocar um encontro. Ela não tinha telefone e a época não era de telefonia celular, e-mails, orkut, nem nada disso. Os orelhões usavam ainda a velha ficha telefônica. Nos coletivos, as pessoas entravam pela porta de trás e desciam pela porta da frente. Bons tempos.
Não tinha outra opção. Ou ia até a casa dela e falava tudo ou esquecia tudo. Eu não era e nunca fui de esquecer. Não ia desistir, não podia. Novamente me pus a pensar. Deveria haver algum jeito. Ir até a escola dela? Não. O noivo dela ia sempre buscá-la. Na casa, não dava, por causa da mãe e da irmã. Não podia me expor. Juro que fiquei dias e dias arquitetando um jeito. Pensei em todas as possibilidades. Não achava saída.
Foi então que me veio a idéia de mandar um telegrama como se fosse uma agência de empregos. Eu sabia que ela estava procurando emprego. Perfeito. Assim saberia perfeitamente o dia, horário e onde ela estaria. Não pensei duas vezes. Fui até o correio e tratei de escrever:

Prezada senhora,

solicitamos que compareça dia tal, no horário tal, a rua tal, para entrevista de emprego e possível encaminhamento para vaga efetiva. Trazer documentos e curriculum.

Atenciosamente
Agência tal

Senti meu coração saltando da boca. Estava eufórico, nervoso, ansioso, com medo de que ela não fosse, com medo de que ela fosse com o noivo que não desgrudava dela. Eu iria ficar de longe, olhando. Caso percebesse que ela estivesse acompanhada, eu daria meia volta e sumiria na multidão.
No dia combinado, uma hora antes eu estava lá, quase disfarçado. Eu transpirava, estava ofegante. Não sabia qual seria a reação dela ao me ver. Poderia simular que era coincidência. Que eu estava lá por acaso. E se ela não acreditasse? E se ela fosse áspera? Ela sempre teve uma postura muito séria. Era impossível saber o que ela pensava. Como já disse antes, eu não tinha tanta intimidade assim. Eu deveria estar preparado.
A cidade era enorme e, calculando tudo, sabia mais ou menos de onde ela viria. Fiquei olhando de longe, quando derrepente, eu a vi. Ela andava apressada. Não queria correr o risco de chegar atrasada. Fiquei de longe olhando e comecei a me sentir mal por tudo aquilo. Fazê-la sair de casa, apressada, andar correndo pela cidade para realizar um desejo meu, para falar de um sentimento que eu nem sabia, ao certo, se existia. Bateu um arrependimento em mim. Derrepente, a coragem começou dar vazão às piores sensações. Ela foi se aproximando do endereço e eu olhando sem dizer nada, sem dar um passo em sua direção. Fui tomado por uma sensação de pânico. Virei as costas e fui embora sem dizer nada. Fiquei andando como barata tonta. Decidi voltar e falar com ela. Ela não estava mais. Era óbvio, não havia entrevista nenhuma. Fui correndo. Eu sabia onde ela tomava o ônibus para casa. Fui diminuindo a velocidade dos passos já na intenção de não alcançá-la. Derrepente eu vi que ela vinha no mesmo sentido que eu, mas a multidão fez com que ela não me visse. Eu me esquivei e vi ela parar em um orelhão. Ela estava triste. Com certeza, estava ligando para o noivo. Decidi deixar tudo de lado. Deixar tudo para trás.
Ela nunca saberia que fui eu que tentei desviá-la do seu caminho.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

BRIGAS*

Nossa briga de ontem me fez pensar.
Quantas palavras amargas, palavras que machucam. Tudo por uma besteira.
Você não conseguiu entender o que eu falava e eu não entendi porque derrepente, você virou para mim, um monstro. Veio com tudo para cima de mim. Falando, acusando-me de coisas absolutamente sem sentido. Falou de provocações, de ciúmes. Acusou-me de falta de atenção, de falta de desejo. Falou que eu me preocupava mais com minhas amigas do que com nossa vida. Falou do meu trabalho, da minha carreira.
Pela primeira vez em quatro anos de casados, dormimos sem falar uma palavra sequer. Cada um absorvido em seus pensamentos. Certos de tudo o que foi dito. A noite não passou. Pela primeira vez pensei se havia feito a escolha certa. Vi o dia nascer, sentada no sofá. Ele dormiu no quarto e em nenhum momento, levantou à noite para ver como eu estava. Ao contrário, chegou a roncar. Sempre foi assim. Ele parecia inatingível. Sempre fora assim. Apesar de me tratar sempre docemente, tinha uma postura meio que severa.
Senti-me só. Como há muito tempo não me sentia.
Quando o sol tocou a janela, tomei um banho e quando saí do banheiro, ele já estava de pé. Lia o jornal na mesa e suas primeiras palavras foram:
- Você não fez o café?
Entrei no quarto, troquei de roupa, peguei a chave do carro e saí sem dizer nada. Estava extremamente magoada. Dirigi olhando para o celular na esperança que ele tocasse e eu ouvisse a voz dele. Nada aconteceu.
Ainda era muito cedo e eu não havia comido nada, senti meu estômago reclamar. Parei em um posto de gasolina e fui comer alguma coisa. Havia algumas pessoas tomando seu café da manhã. Sentei em um lugar meio que afastado e pedi à garçonete um suco de laranja, um pão com manteiga e um café com leite. Comi e ele não saía do meu pensamento. Suas palavras tão rudes, pesadas, carregadas de ressentimentos e mágoas. Comi que nem senti o gosto de nada. Na hora que fui pagar, percebi que estava sem dinheiro, sem carteira, sem cartão, sem nada. Havia deixado tudo em casa. Liguei para casa para ver se ele podia trazer minha carteira e ele não estava mais em casa. Estava conversando com o gerente que simplesmente me disse:
- Deixe a chave do seu carro aqui e volte depois para pagar o que deve!
Eu não podia deixar o carro ali. Estava longe de casa. Presa ali, não tinha como sair simplesmente a pé.
- Eu pago a conta dela.
Quando olhei para trás, ele estava lá, segurando um enorme buquê de flores (Rosas Vermelhas) em uma mão e na outra, minha carteira.
Não pude me conter. Foi um misto de sensações. Amor, medo, nervoso e uma felicidade que não sabia que havia em mim. Ele apenas sorria. Corri e o abracei fortemente.
- Desculpa amor, por tudo. Eu não vou mais viajar. Vou ficar com você! Vou cuidar mais de você. Te dar mais atenção. Fazer café da manhã pra você.
- Você vai viajar sim! Você não, nós vamos! Eu tirei uns dias e vou com você!
Aquele era o homem que eu realmente amava. Se havia dúvidas, elas foram engolidas pelo amor que sinto...